a arte de ser português.
Eduardo Pinto
In 365 Fevereiro 2004

Um condensado de emoções, o episódio mais mítico de todo o desporto olímpico português. Assim se pode definir a estrondosa derrota do atleta Domingos Castro na final dos 5000 metros nas olimpíadas de Seul, em 1988. Por isso, relembrá-lo significa manter viva a nossa identidade enquanto portugueses.

Domingos Castro protagonizou um dos momentos mais agonizantes do modo de ser português e do lusitano atletismo numa quente tarde de Setembro, no Estádio Olímpico de Seul, no ano de 1988. O atleta de Fermentões, concelho de Guimarães, preparava-se para disputar a final masculina dos cinco mil metros. Para trás, ficavam as eliminatórias, ficava também José Regalo que, com o tempo de 13m 24,48s, não conseguiu o apuramento. À sua frente, Domingos tinha o queniano John Ngugi, um pulmão imenso de resistência e velocidade. Ao seu lado, o mano Castro tinha a esperança de quase dez milhões de portugueses e a medalha de ouro conquistada por Rosa Mota, a rapariguinha da Foz, escassos dias antes.
O tiro de partida é dado, e Domingos arranca bem. A corrida avança em ritmo moderado e o atleta de todos nós vai no pelotão da frente, coladinho a Ngugi, confiante. À entrada na última volta, Domingos Castro já é segundo. “Dá-lhe Domingos, dá-lhe”, pensam os espectadores, enquanto gritam, a milhares de quilómetros de distância, um confiante “É prata, é prata”. Todavia, a hecatombe estava guardada para os últimos metros dessa inesquecível corrida: as palavras de um conhecido comentador desportivo fizeram sentido pela primeira vez: “aconteceu o que se esperava: o inesperado”. Castro começa a perder gás e o pelotão aproxima-se. Os nervos apertam nos espectadores e mais devem ter apertado nesse então jovem de vinte e seis anos. Terá pensado na sua Fermentões natal, no professor Moniz Pereira e no mítico Fernando Mamede, que justificava as derrotas com um bruxedo ou com a clássica frase “a cabeça puxava para um lado e as pernas para o outro”. E foi, claramente, nos ensinamentos de Mamede que Domingos colheu o lusitano tique de olhar para trás enquanto corre, tradutor de uma total desconfiança nas suas capacidades enquanto Homem Vitruviano, atleta e democrata. É precisamente esta táctica que Domingos decide aplicar nos derradeiros metros da prova. E o tique saiu-lhe, em bom rigor, pela culatra. Com efeito, enquanto Domingos olhava freneticamente para trás, movimentando a cabeça para o seu lado direito, Dieter Baumann e Hansjörg Kunze, respectivamente da Alemanha Federal e da Alemanha Democrática, ultrapassavam, sem mácula, o atleta lusitano pela esquerda, ante a incompreensão imediata deste fenómeno por parte do atleta de quase todos nós. Quando compreendeu o que se estava realmente a passar, os escassos quatro metros que faltavam para a meta impediram-no de dar o litro, de partir os rins e de cuspir os pulmões para segurar a prata e o reconhecimento mundial: a fama, o dinheiro e os carros, basicamente.
O facto consumava-se e Domingos perdera tudo. De bestial a besta em menos de cem metros, o existencialismo lusitano em todo o seu esplendor: naquele momento, Castro encontrou-se sozinho perante si próprio, sem saber que sentido dar à sua vida. A angústia tornou-se o sentimento fundamental, revelador da sua condição humana e, claro está, da sua condição de português no mundo.
Como um azar nunca vem só, o insuspeito José Regalo, mencionado no primeiro parágrafo, joga uma cartada muito especial neste acontecimento. Tendo ficado para trás nas meias-finais, graças à também muito lusitana desgraça de perder uma sapatilha em pleno andamento, e olimpicamente, acabar a corrida de meia branca literalmente empapada em sangue, Regalo e o seu amplexo são os primeiros a tentar conformar o desolado Domingos. Este, lavado em lágrimas, escassos metros à frente da linha da meta, de respiração ofegante, bradava aos céus, em alta voz, um perturbante e cavernoso “Porquê?”. Contudo, tão rápido como o abraço de Regalo, foi a chegada das câmaras e microfones das televisões. Não se apercebendo – ou fingindo não se aperceber – da presença dos média, Regalo dá a mais que olímpica resposta ao “porquê?” do mano Castro. Em directo para todo o mundo lusófono, Regalo solta, em alta voz e repetidamente, um imortal “calma, caralho!”.
Com a derrota de Castro e o abraço de regalo estava criado um mito. Talvez o maior mito de todos os tempos modernos do atletismo português, deixando para trás o vómito em directo de uma conhecida maratonista, a falta de apoios de Aurora Cunha, as lesões nos adutores de Fernanda Ribeiro e a Nelly Furtado a tratar por tu o presidente Jorge Sampaio.
Para a posteridade, aqui fica a classificação e os tempos dos atletas: 1. John Ngugi – Quénia - 13.11,70; 2. Dieter Baumann – RFA -13.15,52; 3. Hansjörg Kunze – RDA - 13.15,73; 4. Domingos Castro – Portugal - 13.16,09.
 
posted by Eduardo Brito at 10:02 da tarde | Permalink |


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