caminhos cruzados.
Eduardo Brito
in ZonaNon, Junho de 2002

1 Zbigniew Preisner

Zbigniew Preisner afirma que escreve a música que gostaria de escutar caso não a tivesse composto. Assim se pode retratar este compositor polaco, nascido em Bielsko-Biala a 20 de Maio de 1955, considerado pela crítica como um dos grandes nomes da música contemporânea.
A paixão pela música cedo se superiorizou aos estudos de Filosofia e História levados a cabo na Universidade de Cracóvia. Preisner, um autodidacta, tinha como passatempo comprar discos de música clássica e transcrever para o papel as notas que compunham as melodias que ia escutando. É ainda na universidade que escreve os primeiros trechos musicais de sua autoria, trechos esses que hão-de incidir quase em exclusivo na atmosfera cinematográfica, em que mergulha primeiro pela mão de Antoni Krauze, (com Prognoza Pogody) e de seguida, por força da sua forte amizade por Krzysztof Kieslowski, o realizador da Trilogia Azul, Branco e Vermelho. Um dos primeiros trabalhos de Preisner com Kieslowski é a banda sonora original de Bez Konca, filme de 1985. O reconhecimento internacional haveria de chegar alguns anos mais tarde, em 1989, fruto de mais uma colaboração com Kieslowski em Decálogo e, dois anos mais tarde, com A Dupla Vida de Véronique.

1992 vê nascer a banda sonora da Trilogia de Kieslowski naquele que será, provavelmente, o ponto alto da carreira de Preisner. Em Azul, oferece-nos o esboço de uma sinfonia para a Europa, em Branco regressamos à música tradicional polaca, em Vermelho, saltitamos entre refinados boleros e uma doce e melódica sinfonia .

Episódio singular e caricato na carreira de Preisner é a criação do compositor fictício van den Budenmayer, cuja música surge pela primeira vez em A Dupla Vida de Véronique, voltando a aparecer em Azul (é van den Budenmayer que inspira o marido de Julie, também ele compositor), Branco (é de van den Budenmayer a música fúnebre no funeral de Karol) e Vermelho (Valentine compra um disco de van den Budenmayer). Reza a lenda que a Oxford University Press, com vista à compilação de dados para uma enciclopédia musical, terá pedido a Preisner dados sobre esse suposto compositor, e, ante a resposta deste a dizer que se tratava de uma invenção, ter-se-á recusado a acreditar.

Mas como ilustrar o som que sai da cabeça de Preisner? O crítico John L. Walters escreveu que a música deste compositor desempenha um papel tão importante que o espectador chega a pensar que as imagens estão ali para iluminar a música e não o contrário: aqui parece morar toda a magia da música de Zbigniew Preisner. A sua melodia, depreende-se, tem uma assinatura muito própria, se bem que encontramos restos pequeninos da influência de compositores leste europeus, como por exemplo, Henryik Gorécky. Ao escutarmos as obras de Presiner, logo nos apercebemos de uma textura melódica predominantemente assente em tons menores e em tempos lentos, uma sonoridade próxima do poderio acústico das grandes catedrais. Para isto, muito contribui igualmente uma colaboração com Elzbieta Towarnicka, uma soprano de voz poderosa, presente em várias obras do autor.

Uma das primeiras e raras incursões de Zbigniew Preisner para além dos domínios das bandas sonoras começou a ser trabalhada exactamente três dias após a morte do inseparável amigo Kieslowski (as colaborações com outros cineastas, durante o período de vida do realizador, contam-se pelos dedos das mãos, com destaque para O Fio do Horizonte, de Fernando Lopes). Nessa data, Preisner inicia a feitura de Requiem for My Friend, uma ideia cuja origem encalha num projecto comum com Kieslowski enquanto realizador e Krzysztof Piesewicz enquanto argumentista. O resultado previsto seria um trabalho algures entre Ópera e música clássica, cuja composição sonora caberia, como é óbvio, a Preisner. Contudo, a morte de Kieslowski afastou o compositor do conceito original. Requiem for My Friend, considerada como a obra mais elaborada e sentida de Preisner assenta numa peça em dois movimentos: o primeiro, Requiem, repousa na estrutura clássica da missa dos mortos, o segundo, Life, apresenta-se nas vestes de uma sinfonia esperançosa e sentida. Todo este trabalho acabou por ver a luz do dia e o público de Varsóvia no dia 1 de Outubro de 1998. Preisner classificou-o como música de fronteira, algo que não sendo música clássica já não é, igualmente, música para filmes.

Actualmente, desde a cidade de Cracóvia onde vai vivendo, Preisner continua a criar as atmosferas únicas das suas bandas sonoras. Os seus mais recentes trabalhos são as bandas sonoras de Weiser, Last September e Aberdeen, nesta última travando um interessantíssimo diálogo com a cantora pop Stina Nordenstam.


2 Stina Nordenstam

Um jornalista do The Times escreveu no final do ano passado que, para um crítico musical, saber que se vai entrevistar Stina Nordenstam é quase a mesma coisa que, para um crítico de cinema, receber um telefonema que lhe garanta uma entrevista com Marlon Brando. Stina Nordenstam é assim: nos últimos dez anos, gravou cinco álbuns e apenas deu seis entrevistas para falar sobre eles. Não dá concertos, não se expõe minimamente e, no entanto, pode ser considerada como um dos grandes fenómenos de culto que aconteceram na última década do século que há pouco terminou.

Kristina Marianne Nordenstam nasceu em Estocolmo no ano de 1969. Aos quinze anos formou a sua primeira banda, vocacionada para versões de clássicos de jazz. Não que tivesse, então, grandes afinidades com o estilo musical (Stina estudava e cantava música clássica), mas porque estava decidida a ter alguma coisa que fazer para poder estar fora de casa. Uma das várias histórias a seu respeito diz-nos que Nordenstam, por força da autoridade excessiva e opressiva dos seus pais, jurou regressar a casa apenas no dia em que tivesse exorcizado, através da escrita e da música, todos os seus fantasmas. Que se saiba, ainda não voltou e já lá vão cinco álbuns e algumas profícuas colaborações. É a própria Stina, numa dessas poucas entrevistas que foi dando ao longo da sua carreira que nos diz considerar-se uma pessoa “problemática e fragmentada, que viveu uma intensa experiência das coisas: tinha ansiedades e pânicos que nunca resolvi. E é essa biblioteca de atmosferas criadas ao longo da minha vida que parece fazer de mim uma pessoa rica”. E a riqueza está bem presente logo no seu primeiro trabalho: Memories of a Colour, de 1991 mostra ao mundo uma voz ímpar: sem ser poderosa é absolutamente inconfundível, sem ser límpida é pueril e inocente. “Escrevo musica para a minha voz e canto como a minha voz quer, deixa e manda”, afirmou Nordenstam numa das poucas conversas mantidas com jornalistas. Temas como Soon After Christmas (canção inicialmente composta para o grupo jazzy de Stina, os The Flippermen) e He Watches Her From Behind marcam um trabalho que a própria autora considera bastante imaturo, mas que deixa já delineado o caminho a seguir em registos posteriores: histórias tristes e de uma imensa melancolia, própria dos dias de Outono e Inverno. And She Closed Her Eyes, de 1994, desenvolve o rumo traçado, com aquela voz intimista que surge muitas vezes murmurante, próxima de uma certa forma de desordem, própria do estado puro das coisas. When Debbie is Back From Texas e Murder in Maryland Park confirmam a capacidade invulgar de criação de ambientes próprios dos mais tristes filmes, So This is Goodbye é mesmo das poucas canções capazes de transportar qualquer pessoa para dentro da história que ela narra.

A melodia que acompanha a voz de Nordenstam anda perto de um estilo levemente jazzy salpicado pela não menos melancólica mão de Nick Drake. A música parece que vem de longe, como se a estivessemos a escutar ao fundo de um corredor, proporcionando quase instintivamente aquela dicotomia do calor da casa em contraste com o frio que lá fora faz. Toda a obra de Stina Nordenstam é percorrida por uma ideia de fragilidade própria de uma criança que corre em constante desequilíbrio. Sobre o modo de obter estas atmosferas, diz a cantora que “o jogo de criar consiste em oferecer-me um quadro e pintar ao acaso, se bem que, com a música, tenho mais confiança em mim, logo, menos necessidade de me controlar”. Descontrolo e desequilíbrio talvez sejam mesmo as palavras que melhor traduzem o terceiro trabalho de originais da cantora que não dá concertos. Dynamite foi lançado em 1996 e expondo o turbilhão emocional que, aparentemente, parecia varrer a vida de Stina Nordenstam. Um trabalho sombrio, poderoso e experimentalista do ponto de vista instrumental, onde a voz, sem abandonar as características já referidas, se torna amarga e mesmo violenta, resultando num quadro de uma amargura e desolação impressionantes.

Inconstante e irrequieta, a cantora sueca lança, em 1998, um álbum de versões. Tudo começou por um desafio de um amigo, que lhe propôs gravar um tema de Elvis Presley. Stina não ficou por aí, decidindo criar um álbum inteiro de temas dos mais variados artistas, esquecendo mesmo o mote inicial de incluir a tal canção de Presley. People Are Strange, assim se chama este disco onde Nordenstam consegue suplantar em emoção, entrega e arranjos melódicos as próprias canções originais. Para além da emocionante e enigmática versão de People Are Strange, dos Doors, encontramos revisitações e transformações quase diabólicas de Sailing, popularizada por Rod Stewart, Purple Rain, de Prince e I Came So Far For Beauty de Leonard Cohen. Recriações consideradas absolutamente sublimes, assumindo em definitivo o recurso a uma sonoridade carregada daquilo que em fotografia se chamaria de grão.

O crescente reconhecimento por parte da crítica, com as consequentes pressões e solicitações das mais variadas naturezas, levam Stina a procurar refúgio numa casa situada numa floresta nos arredores de Estocolmo e a lutar contra todos os seus enigmáticos fantasmas, pânicos e medos da fama. O regresso a uma certa ribalta e exposição acontece três anos depois com o seu último trabalho de originais, This Is, onde a melodia se torna mais alegre e luminosa, abandonando as tonalidades mais escuras de gravações anteriores, como se tratasse de uma suave transição do Inverno para a Primavera. This Is é um trabalho onde a crise pessoal de Nordenstam parece ter ficado para trás, onde a artista encontra uma certa paz de espírito que sempre lhe houvera fugido. Mas, como de costume, pouco se sabe sobre isto. Stina é avessa à fama, às entrevistas e às imagens. Apesar de trabalhar, entre espaços, como fotógrafa, poucas são as imagens onde ela aparece como objecto nítido e focado. As fotografias são quase sempre difusas e confusas, excepção seja feita às que aparecem em This Is, bem como os dez vídeos feitos por dez realizadores para as músicas deste álbum. Apesar desta crescente e recente nitidez, o mesmo jornalista que aguardava o milagre de obter uma entrevista de Nordenstam espantou-se quando não a conseguiu reconhecer no local combinado para o dito encontro. O recurso a fórmulas de caracterização e maquilhagem nas suas imagens tornam-na irreconhecível no meio da multidão. E aqui surge a dúvida: não será toda esta panóplia de medos e refúgios, depressões e melancolias uma grande encenação? Não interessa. O cartão de identidade de Stina é, sem dúvida, a sua voz. E apenas e só isso importa, seja nos álbuns de originais que aparecem, seja nas diversas colaborações que Stina empreende. Nestas últimas, encontramos cumplicidades tão dispares como com Vangelis, Yello, Brett Anderson, dos Suede, e os produtores Tchad Blake e Mitchel Froom. Antes de partilhar This Is com o mundo, Stina saiu das sombras da sua casa de floresta, onde passava os dias a ler, a passear e a escutar as músicas dos Red House Painters e de Elliot Smith, para expor, por uma última vez, toda a sua melancolia, emprestando a sua voz à banda sonora original de Aberdeen, travando um interessantíssimo diálogo com o compositor polaco Zbigniew Preisner.


3 Aberdeen

Aberdeen é o lugar de encontro entre o compositor polaco Zbigniew Preisner com a cantora sueca Stina Nordenstam. Não propriamente na cidade escocesa, mas sim na banda sonora original do filme homónimo. Um encontro inesperado com resultado audível em Beginning of the Story, I Am Not your Father, A Last goodbye e Aberdeen – End Titles, quatro dos dezassete temas que compõem o álbum. Se bem que por estrear em terras portuguesas, o filme narra-nos a história de Kaisa, uma advogada londrina de sucesso, com uma irresistível queda para a cocaína. Um dia, a sua mãe telefona-lhe de Aberdeen e diz-lhe que tem poucos meses de vida. O último favor que lhe pede é que traga o seu pai à sua presença. Acontece que este se encontra algures na Noruega e de relações cortadas com Kaisa. Apesar de tal ruptura relacional, Kaisa atendende ao estado irreversível da saúde da sua mãe e parte à procura do pai, encontrando-o alcoólico e impossibilitado de fazer a viagem de avião. O que se segue reúne os condimentos básicos do filme de viagem: Kaisa e o pai viajam para Aberdeen de carro, numa viagem de reencontro e aproximação, para um derradeiro adeus. A estrada, ao contrário de outros filmes, não é lugar de libertação, mas sim de confronto de vícios e personalidades, logo, lugar de inúmeras paragens. Aberdeen, cidade que serve de título ao filme, pouco é mostrada nas imagens que fazem o filme, antes se desenhando como o ponto convergente de toda a narrativa que este contém.

Considerado pela crítica como um filme que, sem ser fora de série, não deixa de ser interessante, Aberdeen terá pelo menos a vantagem de oferecer um ambiente musical de uma qualidade impressionante, reunindo a complexidade temática das sonoridades jazzy, a melancolia das canções de embalar e o som identificativo das imagens de vastas paisagens feitas: ao escutar este álbum numa qualquer viagem, logo se percebe o porquê destas linhas. A música, apesar dos poucos instrumentos utilizados (voz, piano, guitarra, baixo e saxofone alto) é límpida e cristalina. Os pianos soam a memórias antigas que sempre antecipam os regressos. E assim se opera a junção de dois criadores provenientes de campos musicais opostos, mas ambos com leves aproximações a uma certa noção de jazz. Os temas em comum espelham a vertente menos sinfónica de Preisner, e, como habitualmente, a melancolia doce e intimista inerente à voz de Stina Nordenstam, um pouco menos sombria que nos seus trabalhos de originais. Em Aberdeen, Preisner parece estar mais próximo do jazz de Gabarek que das sinfonias de Gorécky, capturando alguma sonoridade mais nórdica, com a grande e natural ajuda da voz de Stina Nordenstam, não sendo alheia a esta transformação a própria nacionalidade e lugar de decurso do filme. Os caminhos de Nordenstam (aqui num afastamento do seu habitat natural, o pop) e Preisner tocam-se e separam-se como a intersecção de duas linhas rectas neste filme de Hans Petter Molland. O próprio realizador admite que a música por eles criada é absolutamente milagrosa no que diz respeito à função que desempenha na longa metragem: a criação de uma atmosfera que acompanhe e encaminhe o normal decurso da narrativa. O resultado é, como já foi referido, algo muito próximo de sonoridades de embalar envolvidas num cortinado jazzy. É, então, esta vertente mais jazzy destes compositores que os une. Um rendez-vous inusitado, portanto, com um resultado diferente do estilo identificativo quer de Preisner, quer de Stina, mas que não desvirtua a sua singularidade enquanto autores dotados de um certo génio e criatividade cada vez menos audíveis nos dias que passam. Caminhos cruzados num trabalho único, caminhos que se cruzam provavelmente para não mais se encontrarem. Fica a pérola que poderemos sempre guardar bem perto de nós.





Aberdeen, Noruega, 2000, 113 minutos, cor. Realização: Hans Petter Molland Argumento: Kristin Amundsen, Hans Petter Molland. Elenco: Lena Headey, Stellan Skarsgård, Ian Hart, Charlotte Rampling, Louise Goodall. Banda sonora original: Aberdeen, de Zbigniew Preisner, Silva Records, 2000. Guitarra: John Parricelli. Baixo: Andy Pask. Piano Leszek Modzder. Saxofone Alto: Jerzy Glowczewski. Voz Stina Nordenstam.
 
posted by Eduardo Brito at 9:51 da tarde | Permalink |


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