o piano selvagem.
Eduardo Pinto
In 365 Setembro 2004

Mas afinal, o que será? Para que servirá? Como posso reconhecê-lo à distância? Onde posso comprar um? O que é que me querem dizer com isso? Eis-nos perante a destrinça de um dos mais insuperáveis conceitos da pop portuguesa: o conceito, sentido e limites de “O Piano Selvagem”


Gosto de pop. Gosto de pop art, de papar-te, de super pop de cultura pop e de música pop. Aliás, mesclando dois dos conceitos acima aflorados, sou bem gajo de dizer que a melhor banda de música pop de Portugal, são os Super Pop Delfins: têm a leveza de um detergente e a marítimicidade de uma tainha. “E ele era eu” (in Ser Maior, Uma História Natural) é mesmo daquelas frases que considero estarem à altura de um “cogito, ergo sum” , de um “Delenda est Cartago” ou mesmo até de um “Quando avistei/ ao longe o mar/ ali fiquei/ parada a olhar”. “E ele era eu”: atente-se na aliteração do “e”, atente-se na frase que no norte do país se lê “ ieléra ieu” (há qualquer coisa de tribal, aqui), deleite-se com a frase que funde duas identidades numa só, bem ao estilo de Sá Carneiro, Mário, cantado por Cal Canhoto, Adriana (“Eu não sou eu/ Sou o Outro/ yadayadayada). Repare-se, igualmente, na genialidade do autor, quando opta deliberadamente pela via confucionista (e não confusionista) do “ele era eu”, em vez do “eu era ele” (rectius, “eu era-o”): a fusão do eu com o ele não num nós, mas num outro eu. Brilhante. Tripante, como diriam alguns de nós.
Mas nem só nesta analítica delfínica me centro, qual Tomás da Palma Bravo se senta (60) num balcão de um qualquer botequim. O objectivo desta prosa é dar a conhecer, e, porque não dizê-lo, denunciar uma frase, um poema supinamente superior. Nem mais nem menos que a lendária, mítica e pós moderna primeira frase incluida naquele épico da poesia portuguesa que é a música “Aquele Inverno”, da autoria de Miguel Ângelo Magalhães. Começa o autor por dizer que “há sempre um piano, um piano selvagem”. E ao dizê-lo, numa visão capaz de rasgar horizontes e fazer mover moinhos, o autor inova, transcende, supera. Estamos, sem qualquer ínfima dúvida, perante uma das mais fortes e enigmáticas frases da música pop (e porque não dizê-lo, da arte pop em si), perante um dos conceitos mais difíceis de destrinçar de toda a lírica musical portuguesa: o conceito de “piano selvagem”.
Perguntarão os leitores mais embrenhados neste texto: o que será um piano selvagem? Isso vende-se? Onde posso arranjar um? Preciso de saber solfejo para ter um piano selvagem? Ou preciso apenas de uma trela e de um chicote para o domar? O piano do José Cid é selvagem? E o do Mário Laginha?
Aprofundando e contextualizando o parágrafo anterior, será bem mais útil formular a questão nos seguintes termos: porque será que “há sempre um piano/ um piano selvagem/ que nos gela o coração/ e nos trás a imagem/ daquele Inverno/ daquele inferno”?
Uma análise altamente redutora pode dar-nos conta que um piano selvagem será um piano tocado, por exemplo, por um músico experimental, por um free jazz agressivo, ou mesmo até por um Elton John decadente. Contudo, se mergulharmos nas profundezas hermenêuticas do dito piano selvagem, as dúvidas crescem como mato na própria selva pianal. Um piano selvagem poderá, então, tornar-se num dos seguintes fenómenos:
a) Um piano com quedas para o anarquismo, para a desobediência a quem o toca, onde se toca um acorde de sol sustenido de sétima e ele reproduz um simples, seco e minimal dó bemol. Neste caso, a letra faria mais sentido (e com uma leve piscadela de olho a Pessoa) da seguinte forma: “Há sempre um piano/ um piano anarquista/ que nos gela o coração/ e nos trás a vista/ daquele Inverno/ daquele inferno”;
b) Um piano num grau zero de domesticação, vindo directamente da fábrica de instrumentos: o pianista toca uma escala de dó e o tampo imediatamente cai-lhe em cima dos dedos, provocando a dor, o uivo, o desconsolo e a fractura. Nesta alínea pode enquadrar-se ainda o tipo de pianos selvagens de cauda que dão coices e emitem urros quando se lhes toca. A letra da melodiosa chansong faria muito mais sentido se cantada assim: “Há sempre um piano/ um piano indomado/ que nos gela o coração/ e que nos fala assustado/ daquele Inverno/ daquele inferno”;
c) Um piano que aparece misteriosamente abandonado no Parque Nacional de Marakele, no coração das montanhas Waterberg, na África do Sul, sem que ninguém saiba como lá foi parar, que cace as suas presas com o tampo ou que ande em bandos de pianos pela savana fora.
d) O piano tocado por Britney Spears, no passado Rock in Rio, precisamente na altura em que a dita Britney se levanta e caminha para a frente do palco e o piano continua a tocar.
Atentando em todas as hipóteses adiantadas, fácil será de concluir que o conceito de piano selvagem é um conceito retórico. Quanto mais nele se cogita, mais questões levanta, num claro e selvático desafio ao pensamento de um ocidental. E tudo se complica quando somos confrontados com a realidade fria de que o piano selvagem existe sempre (há sempre um piano/ um piano selvagem): aqui fica um aviso subliminar que o autor faz, alertando o ouvinte para a forte possibilidade daquele piano que tem em casa poder transformar-se, num repente, em alguma das hipóteses aventadas nas alíneas a), b), c), e d). Ficamos também avisados que o dito piano selvagem tem a faculdade de nos gelar o coração (“que nos gela o coração”): será o piano lancinante e pungentemente triste – passe-se o pleonasmo – ou meramente nórdico? As dúvidas são como um rio, que vive só para nós. É nesta faculdade, nesta voz interior fortíssima que mora a riqueza deste poema.
Todavia, a delicada letra não esgota neste verso primeiro (e altamente conceptual, reconheça-se) o seu manancial desafiador: é só uma questão de atentarmos no semi-frio emocional da expressão “Daquele Inverno/ daquele inferno”, na mistura de sensações fortes e descobrir a propensão do autor para essa sobremesa. Eis-nos, pois, perante um domínio confessional e tonalidade intimista própria dos grandes “baladeros”. Já mais difícil se torna a análise ao sentido e limites dos versos “perguntei ao céu: será sempre assim?/ poderá o Inverno nunca ter um fim?/ não sei responder (…)”. Se olharmos com o devido respeito para esta interrogação, podemos, ab initio, indagar que, além-metáfora, o autor poderá ter cometido uma gralha: em vez de Inverno, quer-nos parecer que a palavra – e o conceito – de Inferno faria muito mais sentido nestes versejos: o Inverno, como se sabe, acaba a 21 de Março, enquanto que sobre o fim do Inferno as dúvidas subsistem. Contudo, e admitindo a hipótese de a pergunta ser formulada nesses exactos termos e a esse mesmo interlocutor – o Céu – é normal que este se tenha contido na resposta, para não ter que ensinar as quatro estações ao autor perguntante.
Concluindo e resumindo, é preciso estar alerta no que diz respeito aos pianos: para além de nos gelarem o coração, podem não estar devidamente domesticados, causando, no pianista (intérprete ou compositor) irreparáveis lesões e inconvenientes dissabores. O aviso está feito: cuidado com o piano.
 
posted by Eduardo Brito at 10:04 da tarde | Permalink |


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