porque não gosto de maestros.
Eduardo Pinto
In 365 Abril 2005


Muitos são os ofícios que desempenham um papel fulcral no progresso e avanço da humanidade. Temos como exemplos máximos a medicina, a afinação de carros quitados, a biologia molecular e o coleccionismo. Contudo, outros métiers existem cuja sua importância prática é altamente diminuta, senão nula. E pior do que isso é o facto de tais profissões serem amplamente respeitadas em toda a sociedade, considerada esta num eixo transversal. Falamos, obviamente, de um dos mais inúteis trabalhos – porém, das mais prestigiantes - que a humanidade já conheceu: ser maestro.

No passado mês de Dezembro, tive a oportunidade de me deslocar a Veneza, numa viagem de contornos pouco claros, cujo conteúdo, por razões de segurança pessoal, não vou aqui revelar. Adianto, sim, durante a minha estadia na Aveiro italiana, peripatetiquei-me por vielas, ruas obscuras, cafés famosos, judiarias e loggias sinistras. Relembrei as passadas de Gustav von Aschenbach e o seu quase amor por Tadzio, relembrei Visconti e Dirk Bogarde, Woody Allen e Corto Maltese, Hemingway e o bom leão. Tudo isto, independentemente de não compreender em que é que esta cidade é mais bonita que Aveiro, onde, ao menos, os proto-gondoleiros que guiam os moliceiros não cantam o O Sole Mio ao berros.
Numa determinada terça-feira, encontrava-me sentado na esplanada do café Florian, hipnotizado pelo Sirocco, a beber um traçado e a observar a luminosidade da Piazza San Marco, quando um velho canalha e amigo italiano me desafiou a ir ver Don Giovanni. De imediato, supus que o conhecido allenatore iria proferir uma palestra sobre as virtudes quase melódicas do catenaccio, mas prontamente fui instruído que o dito Don Giovanni mais não se tratava que uma ópera do gigante Wolfgang Amadeus Mozart, de quem sou profundo admirador e conhecedor. Aceitei o convite como forma de quebrar a monotonia alcoólica dos meus fins de tarde venezianos e lá rumei ao reconstruído La Fenice.
Serve este intróito para descrever, com escusados detalhes, a minha chegada triunfal ao La Fenice, onde fui, como habitualmente, efusivamente saudado pelo porteiro e por mais duas ou três pessoas que devo conhecer de algum lado mais ou menos obscuro.
Posto isto, cumpre-me dizer que a ópera foi, como sempre, supina. Aliás, ao soarem os primeiros acordes, lembrei-me logo que já tinha visto o Mozart em Alvalade, tendo-lhe até pedido, aos berros, para tocar o Papageno.
Falemos, então, do que me faz tergiversar em redor deste assunto: a função do maestro. Sinceramente, e sendo eu um melómano convicto, nunca a percebi. Ou melhor, percebo-a tão bem como a presença da vaca e do burrinho no presépio, ou seja, num mero contexto acessório. Ora, isto nada tem de revoltante quando se cumpre o desígnio de Thom Yorke: everything in it’s right place. E tal desígnio, como é intuitivo, não se verifica nestes casos, uma vez que o maestro é o tipo que colhe os louros todos, quando pouco ou nada fez para isso. Senão vejamos. A primeira ovação é sempre para ele, só pelo simples facto de entrar em cena. Ainda não fez nada de digno e já está a comer com palmas e mais palmas. A única coisa com verdadeiro sentido que um maestro faz em toda a sua actividade –seja em ensaios ou em performances ao vivo - é aquele inspirar profundo, seguido de uma subida de braços, em um, e dois, e três e zás, que a música comece. Aí sim, há alguma função, uma coordenação útil, que permite que dezenas de instrumentistas comecem a tocar uma obra exactamente ao mesmo tempo, sem falsas partidas, o que, como se sabe, é algo difícil. Claro que o percussionista ou o tipo dos pratos – elementos que, nas orquestras, também não fazem praticamente a ponta de um chavelho e são pagos – podiam fazer exactamente o mesmo. Mas não. Tem de ser o tipo com ar mais velho e respeitado, para conferir uma certa solenidade ao certame. Depois, anda ali a mexer a batuta de um lado para o outro, ao sabor da melodia – coisa que qualquer tipo, com o mínimo de ritmo, poderia fazer, sem ter de dizer que passou pelo conservatório, pela Guildhall School of Music and Drama em Londres ou pela Academia de Música da PSP -, tem um ajudante que lhe muda as páginas da partitura - o que indicia que até pode não saber ler uma pauta - e por regra, usa um ar grave e sério para as partes pesadas da estrutura musical e um ar aborboletado para as partes mais aligeiradas. Durante a obra que rege, deve, provavelmente, ir pensando nas compras que tem que fazer, no fraque que veste e que lhe fica a matar, vai olhando lascivamente para a segunda violinista – um clássico – e tudo isto, sob a veste disfarçante da mais absorvente compenetração. Algumas horas mais tarde, arrisca-se a ser ovacionado de pé. Nada de mais, comparado com o que vem a seguir: flores, mais aplausos, calorosos amplexos acompanhados de frases do género “brilhante”, “magistral”, “dotou esta ópera de uma nova vida”, entre muitos outros elogios absolutamente imerecidos, quando o que o batutas fez é quase igual a zero. Honrosa excepção nesta absorção de méritos é apenas o reencaminhamento de parte das estrondosas ovações mencionadas há pouco para os verdadeiros executores que são os instrumentistas. Depois, chegam as regalias, os salários principescos, o nome que no disco se sobrepõe ao do próprio compositor e aquela aura quase mística que se traduz muito bem na frase que se diz a um próximo: “devias ir ver esta sinfonia, o maestro é fulano”. Como toda a gente sabe, isto é verdadeiramente revoltante e ultrajante: insulta os compositores e a sua memória, insulta os instrumentistas e o seu virtuosismo.
Glorifica-se o intermediário, esquece-se o produtor da matéria prima e o comprador final. Jean Baptiste Say – que esteve para ser maestro – e Karl Marx, esse melómano, por certo que dão voltas na tumba com isto. Eu próprio não escondo o meu incómodo. Maestro, caros leitores, só há um: o Rui Costa.
 
posted by Eduardo Brito at 10:01 da tarde | Permalink |


1 Comments:


At 10:12 da tarde, Anonymous Anónimo

Confesso que o esperava um pouco menos reaça, caro Dr. Brito. Essa do maestro não servir para nada senão para impedir que a batuta, por força da gravidade, se estatele no chão, revela que, das duas uma: ou não frequentou um organismo recreativo idóneo como o Coro Misto da Universidade de Coimbra, ou então é daqueles que também acredita que os chineses não morrem, porque em nenhuma lápide portuguesa se pode ler "Aqui jaz Chao-Min, chef inventor do chop-soy de torresmo. Saudade das mulheres e 34 filhos, todos habitando um T3 em Santos. (Aluga-se quarto em Santos)"
Aliás, pense o estimado colega, que na mesma ordem de ideias, também o realizador de cinema devia ser chamado à sua retórica inutilidade. Não é ele que escreve o guião, não é ele que arranja os milhões, não é ele que filma, não é ele que interpreta, e tem um exército de conselheiros que opinam em todas as áreas possíveis e imaginárias. O realizador, em última análise senta-se numa cadeira, é o que ele faz, o acto ontológico do sentar.
Assim, prponho-lhe que olhe - entenda-se, ouça - para o objecto da sua melomania com um pouco mais de cuidado e verá que um maestro é fundamental, e quando não o é criativamente, porque convenhamos que muita música clássica canónica já não pode aspirar a mais do que uma maior perfeição, é-o no mínimo como catalisador da motivação dos seus músicos - uma ideia que não lhe pode ser estranha - mister.
E se nunca o descobriu foi porque teve a sorte de ver um coro ou uma orquestra frouxa, porque senão perceberia a diferença.
Seu correspondente amigo,
Arquitecto Estica.

 


















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