problematizar no gerúndio: problematizando.
Eduardo Pinto
In 365 Outubro de 2003
In 365 Os Primeiros Anos, Ed. Coolbooks, 2005.

Definimos o gerúndio como o tempo verbal que designa uma certa circunstância da própria acção verbal. Rodrigues Lapa, na sua belíssima Estilística da Língua Portuguesa aconselha-nos, a respeito deste tempo verbal, que “não abusemos dele, mas não hesitemos em empregá-lo, sempre que o reconheçamos superior a outros modos de escrever”. Pelo uso normal da língua portuguesa que o português médio faz, é fácil reconhecer que o conselho de Rodrigues Lapa é tomado à letra, sobretudo se comparado ao uso que é dado a este magnífico tempo verbal por outros países de expressão lusófona. O gerúndio é, portanto, um tempo verbal que não levanta grandes problemas quer na sua formação, quer no seu emprego. É um tempo verbal tranquilo, sobretudo se cotejado com o particípio passado.
Mas a tranquilidade do gerúndio muda de figura (e não de tempo) quando entra em causa a onomástica. Um cocktail explosivo forma-se de imediato quando estas duas categorias da nossa gramática se abraçam, lançando de imediato o pânico, o caos, a consternação e, por vezes o incómodo. Por que diabo é que existem certos nomes próprios no gerúndio? Eis a pergunta que afecta qualquer pessoa que se preocupa com os grandes problemas da vida, da filosofia, da física e, claro está, da língua portuguesa e das suas questiúnculas. Como é que alguém põe a um filho um nome que é, também, o tempo de um verbo?
Repare-se numa pessoa chamada Armando e veja-se a facilidade com que se pode chegar à conclusão que esse ser humano é a circunstância da acção verbal do verbo Armar. O Armando estava armando confusão. Ora aí está uma confusa verdade. O Armando armando? Impossível. Armando não arma. Armas, quem falou em armas? Céus, que amálgama tremenda. Então Armando não é circunstância de armar? Armando é circunstância de um desvario dos seus pais, depois dos quarenta, quando já tinham mais cinco rebentos. Enfim, confusões se seguem quando o nome das pessoas (sempre do sexo masculino) é, por exemplo, Orlando. Entramos, de imediato, nos domínios do verbo orlar. “Ali estava ele, na orla da floresta/ triste e funesta/ cortejando a donzela, orlando seus braços/ por entre os braços dela ”, escreveu um dia Alípio Batalha, obscuro poeta pré-romântico português do século XVIII, nas suas Diásporas. Bem feitas as contas, quando alguém diz ele estava orlando, podemos pensar que se trata de um erro tipográfico ou de construção frásica pois de imediato cremos que o autor quis dizer ali — e não ele — estava Orlando. Nada mais obscuramente claro, afinal.
Veja-se, de igual modo o caso de Sisenando enquanto nome e enquanto circunstância da acção de sisenar, ou seja, acto ou efeito de ir pagar a sisa. Tomemos como exemplo a realidade brasileira, onde Sisenando é nome vulgar. Imaginemos Sisenando em Portugal, a sisenar, quando encontra um desconfiado conhecido que lhe pergunta o que está ele a fazer perto da repartição de finanças. Sisenando responde: “estou sisenando”. O amigo corrige, dizendo que não se diz “estou Sisenando”, mas sim “sou Sisenando” e que disso ele já se tinha apercebido “desde o momento em que se conheceram”. Sisenando, que sisenava com pressa, toma a delicada correcção como um insulto insinuante e segue-se uma cena de pugilato. Quem culpar numa situação destas? O Sistema?
Outro dos nomes no gerúndio é Fernando. Relembremos as sempres sábias palavras de Monteiro Serpa, escritor português do século XX, talvez o único a sofrer de dislexia escrita: “depois de comer, baguirra (sic) cheia, dei por mim fernando o galho” numa dúbia alusão a práticas onanistas ou simplesmente à sesta. Neste capítulo da onomástica, Rolando é outro dos nomes no gerúndio que traz à baila a confusão estrutural da nossa língua. Ilustrando com um exemplo sempre rico da escrita paupérrima do realista Nunes Antunes, o autor de A Lava lava os Meus Segredos, lemos que “Pedro e Paulo Rolando estavam rolando pela areia, ante o olhar repreensivo dos senhores seus pais” ficando a dúvida, sempre motriz (bela palavra, sobretudo quando usada em frases tipo “vou à missa na igreja motriz”) de todo o nosso raciocínio se Pedro Rolando e Paulo epónimo estavam a circunstanciar a acção verbal do verbo rolar ou se estavam a ser eles próprios (Os Rolando) e se tal atitude de genuinidade era razão da repreensão dos próprios pais, também eles Rolando (não pela areia, mas por parte de um antepassado).
Enfim, o estudo ora apresentado leva-nos a concluir, com claridade, que se deve evitar ao máximo a “doação” destes nomes a recém-nascidos. Para o bem da língua portuguesa, do gerúndio com todos os seus direitos enquanto tempo verbal e dos próprios nascituros (que poderão encarar tal atribuição como uma afronta estigmatizante tão grande como chamar-se Alcibíades Sardanapalo, em homenagem a um avô contrabandista). Lembremo-nos sempre que no princípio era o verbo.
Uma última observação a mais um caso de abuso de gerúndio. Nos tempos idos da RTP única, havia um programa denominado Brinca Brincando, teletransmitido circa seis da tarde, dedicado aos desenhos animados e quejandos. Tinha como protagonista uma espécie de robot com uma boca descomunal, onde a jovial apresentadora introduzia, qual bolacha maria, uma cassete vhs com o desenho animado que a canalhada iria visionar de seguida. Nada de mais nesta descrição, excepto o hediondo aspecto do dito boneco, com um leve toque de canibal (ficava-se sempre na dúvida se o dito cujo ia deglutir, ex aequo com a cassete, a mão da apresentadora), capaz de provocar os pesadelos mais lúgubres de qualquer miúdo. Tudo de mais com o nome do programa que, irritantemente, abusava do gerúndio, desta feita, perigosa e quase mortalmente acoplado ao imperativo: Brinca (ordem) brincando (abuso da própria circunstância imperativa de brinca). Brinca brincando mais não é que uma redundância escusada, capaz de enganar qualquer pessoa que via o programa e que, quase inconscientemente, utilizava o gerúndio de uma forma que, manifestamente, provocava Rodrigues Lapa e os seus ensinamentos. Exemplos desta provocação não faltam. Há um em cada verbo, mas sobressaem o come, comendo, o caga, cagando, o penteia-te, penteando-te, o embebeda-te, embebedando-te, o sente, sentindo, o cre, crendo, o flipa, flipando, o invade, invadindo, o brune, brunindo, o coita, coitando. Uma gigantesca panóplia de misturas tão venenosas quanto a cicuta que mata matando se se bebe bebendo. Exemplos destes só demonstram que o povo português possui, possuindo uma das mais elevadas taxas de desrespeito pelo gerúndio, usando e abusando (ora aí está um exemplo portentoso de um belo uso do gerúndio) deste tempo verbal. É caso para dizer que basta bastando deste abusar abusando. Devemos ser responsáveis e usar o gerúndio com moderação. E por aqui me fico ficando, conluo, concluindo.
 
posted by Eduardo Brito at 10:03 da tarde | Permalink |


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