a verdade do medo.
Eduardo Brito
In ZonaNon, Maio de 2002

Ao longo dos tempos, a relação do Homem com o medo conheceu variadíssimas formas de manifestação: da pintura à música, das palavras às imagens, esta dialéctica está presente em quase todas as formas de expressão artística. E o cinema não se constitui como excepção. Aliás, logo na sua génese, no Grand Café do Boulevard des Capucines em Paris, no dia 28 de Dezembro de 1895, o cinema foi capaz de provocar a primeira sensação de medo nos espectadores, com a chegada do comboio à Gare de la Ciotat. E ao longo da sua história, a Sétima Arte brindou os seus devotos seguidores com inúmeros exemplos, sejam eles encontrados na reflexão sobre o próprio medo em si ou existam eles na criação de atmosferas que ao medo conduzem.

O filme Peeping Tom, datado de 1959, contém precisamente tais duas variantes na abordagem deste fenómeno. Realizado por Michael Powell, conta-nos a história de Mark Lewis (Karlheinz Boehm), um operador de câmara que se dedica a assassinar mulheres com um punhal estrategicamente colocado no tripé da sua câmara de filmar, registando os instantes de terror que antecedem o momento fatal e obtendo, deste modo, a genuína face do medo.

Logo no início do filme, somos levados a contemplar a tela através do olho do assassino: imediatamente, o espectador assume uma grande cumplicidade com aquele que se prepara para matar, se não mesmo uma perfeita identidade. Vestimos em pleno a pele de voyeurs, quer como observadores da narrativa, quer como comungando a visão do assassino, como se nada mais existisse em seu redor senão aquilo que ele vê. Sublime exercício de Michael Powell que, recorrendo a esta estratégia nos faz transpor a fronteira do campo testemunhal para, como que por magia, nos associarmos à personagem do malfeitor. Mas será Mark a personificação do Mal? Ao longo do filme, tal ideia vai-se esbatendo. Conhece-se a outra face de Mark, rosto esse marcado por um profundo trauma de infância, por um profundo processo psicológico: o seu pai, reputado cientista, usara-o como cobaia nas suas experiências em torno da psicologia do medo, do terror, filmando o pequeno Mark nas mais diversas e aterrorizantes situações, desde um acordar estremunhado a meio da noite, até à visão do corpo morto da sua mãe. O assassino torna-se vítima. E assim se cumpre o alcance das duas faces do medo: durante o filme, somos mergulhados numa atmosfera sinistra, durante o filme reflectimos sobre como os medos criam ou potenciam novos medos. E para tal, muito contribui o excelente desempenho de Boehm. Peeping Tom, enquanto thriller, ultrapassa as barreiras deste género cinematográfico: aliado à violência e ao suspense, exercita uma reflexão sobre o voyeurismo, contida no próprio título do filme (uma expressão inglesa que abraça o significado de voyeur, o Tom que espreita), bem como reflecte sobre o rosto do medo, abarcando, de um modo metafórico, a velha lenda que reza que o ultimo olhar de uma vítima guarda a fotografia de quem a vitimou. Este filme mostra-nos, ainda, uma solitária e tímida personagem que, qual Jeckyll e Hyde, se trasforma num requintado e metódico assassino. É um filme com uma intensidade dramática fortíssima, que poderá encontrar paralelo apenas em obras do não menos genial Hitchcock.

Aquando da sua estreia, a crítica inglesa arrasou o filme, apelidando-o de "nojento" e "doentio", factos que levaram à quase ruína do seu realizador, salvo apenas pela admiração de Martin Scorcese que, em 1976, recupera o filme e o exibe na sua América.

Michael Powell caracterizou este filme como um filme ternurento. E talvez o seja, se bem que, acima de tudo, estamos perante cento e um minutos onde se cumpre um dos grandes desígnios da arte cinematográfica: sentir o olhar. Sem medos…





Peeping Tom, Inglaterra, 1959, 101 minutos, cor. Realização: Michael Powell. Argumento: Leo Marks. Com: Karlheinz Boehm, Anna Massey e Moira Shearer.
 
posted by Eduardo Brito at 9:48 da tarde | Permalink |


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EB


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