costa da morte: ouro sobre negro.
Texto: Susana Almeida Ribeiro
Fotografias: Eduardo Brito
in Público, suplemento FUGAS, ed. de 13 de Novembro de 2004.


Fábrica, Brens.



Saborcito, ao vivo em Finisterra.



Cândido, pescador. Finisterra.



Cândido, Finisterra.



Porto de Finisterra.




Cabo Finisterra, ao longe o Monte Pindo.



Cabo Finisterra: o fim do Caminho.



Cabo Finisterra.



Cabo Finisterra.



Cabo Villan, visto de Muxia.



Muxia.



Igreja da Virxe da Barca, Muxia.



Francisco Sambad, Muxia.



Pescador, Camariñas.



Camelle.



Vestígios do Prestige em Camelle.



Museu do Alemán, Camelle.



Camelle.



Porto de Malpica.



Porto de Malpica.



Porto de Malpica.



Praia de Malpica.



Malpica, com as ilhas Sisargas ao fundo.



Cemitério dos Ingleses.



Cemitério dos Ingleses.


Faz hoje dois anos. No dia 13 de Novembro de 2002, o petroleiro “Prestige”, com 26 anos de navegação, lança os primeiros sinais de alerta. A Costa da Morte, o mais ocidental e agreste pedaço de terra espanhola, é engolida pelo negro da catástrofe ecológica e económica. Hoje, 13 de Novembro de 2004, a história poderá ter um final surpreendente: diz-se que alguns pescadores e marinheiros enriqueceram com os subsídios, compraram carros e arranjaram casas. Foi ouro sobre negro.


Miguel, o vocalista do grupo musical Saborcito, abana as ancas em cima de palco, num pequeno bar de Finisterra. É secundado por um trio de homens da terra, com castanholas e reco-reco. Pode parecer despropositado falar deles neste fim de mundo agreste; sobretudo de Miguel, um paraguaio que canta ritmos de salsa acompanhado de um teclista, mas é ele que nos dá parte da verdade num dos seus refrões: “Devorame otra vez, ven devorame otra vez”!
Miguel veio para Espanha há dois meses. Já não viu as sucessivas marés negras que se entranharam em Finisterra, como se a terra também cantasse “devorame otra vez”. Mas no dia 13 de Novembro de 2002, o “Prestige”, um petroleiro de casco simples, lançou o pânico na vila piscatória. Soaram os alarmes a umas escassas 28 milhas ao largo da terra.
O navio começou a ser rebocado no próprio dia, mas menos de 24 horas depois começou a verter fuelóleo. Na noite do dia seguinte já se tinham escapado três mil toneladas que se espalharam por 37 quilómetros de costa logo ali, ainda o pesadelo estava a começar.
Os habitantes de Finisterra começaram a ver o azul passar a negro, como numa má experiência química. O “Prestige” acabou por sair de perto, afundando-se mais a sul, já no “mar alto”, quase uma semana depois. Mas o mal já estava feito. Na trajectória do barco moribundo, o petroleiro foi deixando um rasto de podridão. O resto foi o que se viu na tv. A fauna mergulhada numa pasta preta e as rochas plastificadas a alcatrão. Um desastre. A Costa da Morte, a mais massacrada (mais que a Costa Cantábrica, no norte da Península Ibérica, das Astúrias ao País Basco), passava de um paraíso agreste e místico ao epicentro de uma catástrofe ecológica sem precedentes na Galiza. Os pescadores ficaram em terra, proibidos de pescar enquanto o “Prestige” não terminasse de vomitar toda a sua carga: um total de 77 mil toneladas de fuelóleo. Dois anos depois, como se contou o resto da história? Se esquecermos o óbvio – o massacre da fauna e da flora pelos tentáculos do petroleiro – podemos entrar no terreno da polémica e dizer: a muitos pescadores, o “Prestige” trouxe vantagens económicas.


O ouro deu à costa

Depois de uma primeira denúncia, da boca de um habitante de Finisterra (Cândido, reformado), voltamos a insistir junto de outra pessoa: “É verdade que os pescadores daqui ganharam dinheiro com o ‘Prestige’”? “Más bien que la leche!”, adianta-nos um galego, Xosé Manuel, de Corcubión (a norte de Finisterra). Traduzindo, alguns marinheiros da Costa da Morte “compraram carros” e “arranjaram as casas” com o dinheiro das indemnizações, que começou a ser entregue ainda antes do petroleiro se ter afundado, no dia 19 de Novembro de 2002.
De acordo com dados fornecidos ao FUGAS pela Consellería de Pesca e Asuntos Marítimos, da Xunta da Galiza, 1554 marinheiros da Costa da Morte receberam ajudas económicas entre o dia 18 de Novembro de 2002 (cinco dias depois do primeiro sinal de alarme) e 22 de Outubro de 2003. Os subsídios, que tinham como objectivo colmatar a falta de sustento dos pescadores impedidos de trabalhar, oscilaram entre os 800 e os 14.160 euros. Porém, confrontada com o alegado enriquecimento de alguns pescadores, a Consellería de Pesca e Asuntos Marítimos faz saber ao FUGAS que essas afirmações “são gratuitas e sem consistência”, até porque os marinheiros subsidiados tinham o compromisso de colaborar na limpeza das águas e das praias. Mas a vox-populi insiste que sim, que se encheram bolsos... Cândido, de 49 anos, de Finisterra, levou para casa 1200 euros por mês durante dez meses. Diz que só levou o que lhe era devido. Mas reconhece que algumas pessoas lucraram muito com a catástrofe. Não adianta muita conversa. Percebe-se que não se opõe, porque a vida do mar é dura. Porque já perdeu amigos. Porque ele também já esteve em perigo, metido dentro de um barco-casca-de-noz durante sete horas, uma sanfona num mar virado.
A verdade é que se gastou muito dinheiro a aplacar a catástrofe. De acordo com os números oficiais, o FIDAC (Fundo Internacional de Indemnizações por Danos Causados pela Contaminação por Hidrocarburetos) recebeu de Espanha uma factura na ordem dos 512 milhões de euros, quantia à qual se juntará em breve uma nova soma, na ordem dos 120 milhões.
Hoje o mar está limpo, a pesca foi retomada a 17 de Março de 2003 e o governo espanhol anunciou oficialmente há dois meses ter concluído a recolha do fuelóleo que ainda se encontrava nos tanques do petroleiro Prestige. Mas os cientistas dizem que as repercussões socio-económicas e ambientais do naufrágio se vão fazer sentir durante, pelo menos, uma década. A prova do que aconteceu mantém-se a 3800 metros de profundidade.


Mais além da terra dos vivos

Mas falar da Costa da Morte associada à maré negra do Prestige é fazer esquecer o próprio valor daqueles promontórios. Sejam ou não o palco de um acontecimento mediático. Em boa verdade, a Costa da Morte é, na sua essência, um esconderijo humilde, uma terra vergastada pelo mar, pelo vento, pela depressão económica e pelo silêncio. Um pedaço de terra que fica num extremo tão extremo, que fica quase mais além da terra dos vivos. Na Antiguidade a Galiza era considerada o fim do mundo conhecido. Hoje mantemos a mesma dúvida, quando nos sentamos frente ao Atlântico.
Uma das explicações para o nome da Costa da Morte reside em antigos cultos mitológicos, que localizavam o Paraíso mais além, no mar alto. Quando alguém morria, o seu corpo era entregue às ondas, na esperança que a sua barcaça fosse guiada pelas divindades até à terra dos mortos, lá longe, algures numa ilha no meio do oceano.
Outra das explicações para o nome desta costa - provavelmente a mais aceite - está nas centenas de naufrágios que se foram sucedendo ao longo dos séculos. O mais famoso de todos foi o que afundou o “Serpent”, um couraçado britânico que se dirigia para a Serra Leoa mas que na noite de 10 de Novembro de 1890 não resistiu às ondas de seis metros, aos fortes ventos e à nula visibilidade. Dos seus 175 passageiros apenas se salvaram três. Com os corpos dos náufragos a dar à costa, o pároco da localidade de Xaviña (município de Camariñas) construiu o Cemitério dos Ingleses, que ainda hoje se ergue frente ao mar, sepultando os marinheiros.
Em 102 anos de história (entre 1773 e 1987), estima-se que ali se afundaram perto de 150 navios. Existe mesmo a lenda sinistra que diz que muitos dos naufrágios foram provocados por habitantes locais, que acendiam luzes falsas causando os desastres marítimos, para então se apropriarem das cargas. Centenas de fantasmas acumulam-se hoje no fundo do mar, junto às costas retalhadas e cortantes.


Pela Costa, rente ao mar

Deixando os fantasmas e a história, fazemo-nos à estrada e começamos a nossa rota pelo sul, partindo do princípio que o viajante entra na Costa da Morte vindo do norte de Portugal. Avance pelo mapa de baixo para cima, vá pelos seus dedos, aos pedacinhos, para não perder um dos pontos vitais da Galiza. Em termos geográficos simbólicos, apesar de nos moldes geográficos actuais ser um bocadinho mais extensa, a Costa da Morte alonga-se desde o Cabo Finisterra (a sul) até às Ilhas Sisargas (a norte), ao largo da localidade de Malpica de Bergantiños.
Esta será uma rota por alguns dos locais mais emblemáticos dos municípios costeiros. A aventura começa pela Fines Terrae (Fim da Terra = Finisterra), local onde não pode falhar uma subida ao cabo com o mesmo nome, onde se ergue o farol, e na descida é obrigatório entrar na pequena igreja de Santo Cristo de Finisterra, ao qual são atribuídos poderes milagrosos, nomeadamente o crescimento da própria barba e cabelo. A vila piscatória é dominada pela lota que, como quase todas da região, nem tinha até há bem pouco tempo, acesso por estrada, apenas por mar. Era o caso de Camelle e Arou.
De Finisterra sobe-se até Muxía, onde é obrigatório ver o Santuário da Virgem da Barca, à frente da qual se ergue a curiosa “pedra dos cadrís” que, diz-se, quem passar nove vezes por baixo dela consegue curar-se dos males da coluna. Ainda que não acredite nas terapias naturais, é sempre divertido tentar enfiar a linha do corpo pelo buraco de uma pedra. Outra pedra famosa, erguida frente à igreja, é a “pedra de abalar” que, qual Excalibur metida na rocha, só cede perante os puros de coração. O santuário da Virgem da Barca é um dos mais antigos da Galiza e um dos mais emblemáticos, local de peregrinagem de milhares de fiéis.
A paragem seguinte está no município de Camariñas, a vila do Cabo Vilán, uma entrada de terra que estabelece o recorde de ter o farol mais potente da Europa. Um pouco mais a norte, é obrigatório deter-se em Camelle, onde até 2002 morou o homem conhecido por “o alemão”. “Morreu de desgosto, uns dez ou onze dias depois do acidente do ‘Prestige’”, garantem alguns populares. Mas a casa onde morava conserva-se lá, praticamente em cima do mar. Uma espécie de forte de Neptuno arquitectado por um plagiador do estilo Gaudí. Pouco se chegou a conhecer sobre a história do “alemão” – um cidadão chamado Man -, que passou grande parte da vida a recolher os objectos que lhe traziam as marés; pecinhas de lego para as suas construções psicadélicas e coloridas. Hoje a casa está fechada, mas pode-se ainda espreitar de fora o jardim rochoso e labiríntico do alemão-galego eremita.
Na última paragem, num dos pontos mais a norte da Costa da Morte, fica Malpica de Bergantiños, cujas praias sofrem já a influência das marés frias do Cantábrico. Defronte da vila eleva-se o arquipélago das Sisargas, um refúgio para diversas espécies de aves marinhas e espécies migratórias.
O viajante poderá terminar aqui, em Malpica, o serpentear pela Costa da Morte. Aconselhamos que desça até à lota, à hora de chegada dos barcos, por entre a gritaria das gaivotas. Demore-se a desafiar o sol rasante de Inverno, a beber uma cerveja e a petiscar calamares. A viagem faz-se bem num fim-de-semana prolongado, daqueles que se perdem frente à televisão.
 
posted by Eduardo Brito at 4:39 da tarde | Permalink |


0 Comments:




















autor
EB


página principal
A Divina Desordem


mais recentes


arrumações


© Eduardo Brito | Todos os direitos reservados.
Layout design by Pannasmontata + adaptações de EB