the balliols - showcase.




















The Balliols, fotografados por Ingrid Pradel

texto de John Herrera

Um hotel na praça de Urquinaona em Barcelona. Um showcase de três temas, quase sem espaço para palmas. E depois, as perguntas dos que por lá passaram. Assim foi a apresentação dos The Balliols, uma semana antes do lançamento do álbum homónimo, fruto do êxito conseguido com um myspace criado há menos de um ano e que deteve recordes de downloads.


Até ontem, tudo o que se sabia sobre os The Balliols não passava de especulações e comentários em blogs. Para além disto, apenas um Youtube caseiro que conjugava umas fotografias da banda ao som de Don't Think You're As Good As We Are, seguramente descarregado do myspace e que deu várias voltas ao mundo em mails de recomendação da banda a amigos. Recentemente, e dentro da remodelação/simplificação do myspace dos The Balliols, o tema desapareceu, tal como todos os outros que lá se encontravam.

A apresentação do showcase que iríamos ver foi feita por um aparente recepcionista do hotel. Depois de uma breve apresentação do álbum, ofereceu aos presentes a promo e falou um pouco da banda e do seu projecto musical. Ficamos a saber que Albert Fish (Dumbarton '81), Sigmund Gisbert (Linz '80) e Lucas Barbosa Ferreira (Viseu '79) partilharam casa em Barcelona em 2004, cumprindo um segundo semestre do programa universitário Erasmus e que a dissidência de um lifestyle de consumo, de festas, drogas e flirts ao melhor estilo de L'Auberge Espagnol levou-os a um processo inverso, de criação, sempre norteado pela máxima que diz que "sociedades en fiesta son estúpidas y absurdamente cretinas".

Mas esta máxima quase anti consumista só aparece na conferência de imprensa, ocorrida depois da estreia da banda ao vivo, com a interpretação de três temas do álbum que se prepara para sair. Nos momentos que antecedem o início do showcase, as perguntas sucedem-se: afinal quem serão estes tipos? E o que querem? A guitarra e o baixo foram afinados ali, às claras, levando a sala aos sorrisos primeiro e ao silêncio depois. A luz apagou-se, dando lugar a um azul profundo quase escuridão, como se estivéssemos dentro da pre-millenium tension de Tricky. Ouvem-se as primeiras notas de Don't Laugh at Us, o único instrumental do disco, feito de um hipnótico minimalismo. Depois, e já dentro do segundo tema, Don't Think You're Above Us, Sigmund Gisbert dá rapidamente as boas vindas à assistência, dizendo "don't think you're above us, don't think you're above us, If you're human, you have moods, you'd think that might pick some journalist's curiosity". Segue-se mais melodia hipnotizante. Don't Think Anyone Cares For You é o ultimo tema da sessão. De ritmo mais lento, a voz ganha mais presença e lança palavras duras contra a sociedade ocidental: "you're lost, each morning in your car, climbing your career and keep lying like the rest of us. I'm poor and I'm happy. Blind ties."

Todos os temas são longos, maduros e envolventes, o som é sem dúvida muito novo, fresco e adulto. Gélido, mas envolvente. Estes rapazes têm muitas influências: de Radiohead a Massive Attack, com paragens em Einstruzende e Neu!. Mas há ali também uma guitarra descompassada e suja digna de um Lou Reed irritado com o mundo. Não fazem nada de novo, mas não há quem dali não saia hipnotizado. No final dos três temas, o acender dos candeeiros da sala foi demasiado cruel para os presentes. Regressa-se, portanto, ao hall do hotel, à plateia do palco improvisado: os músicos soltam-se dos instrumentos e vêm para a mesa munida de garrafas de água esperando as perguntas dos resistentes.

Com experiência musical, apenas o austríaco Sigmund Gisbert que passou, como baterista por alguns projectos sem relevância no seu país natal. Os outros estiveram, até então, ligados à música de forma descomprometida e sem pretensões de aí fazerem carreira. Sigmund Gisbert entra na banda agora como vocalista/baixista e programador de máquinas de ritmos. Albert Fish junta-se como guitarrista de uma prestação múltipla, fruto da utilização de um pedal de loops que lhe permite variar e ramificar-se em varias guitarras enquanto toca. Lucas Barbosa Ferreira, o mais afável dos três (e que ainda nos levou a beber uns copos pela cidade), gere os teclados que centram a peculiaridade da banda, na frequência digital que faltava: qualquer coisa intermédia entre um Hammond de Acid-Jazz setenteiro e um orgão quase Depeche Modiano.

Ao fundo da sala, destaca-se o nervosismo de quem deu à luz o trabalho gráfico que completa a música: a fotógrafa e designer catalã Ingrid Pradel assiste tensa mas sorridente ao espectaculo da banda, com um isqueiro na mão esquerda sempre apto a reacender mais um cigarro que tira da sua cigarreira de metal (saltando as regras, já que no local um cartaz assinala que é proibido fumar). Ao seu lado, o produtor Iñaki Izaguirre (Los Dúbios, The Nesbitts, Antique Bolshoi Dancers) e o técnico de som Carles Fortuny (também eles bastante parabenizados) bem mais cómodos nestes ambientes, de olhos postos ora no palco ora na assistência, disfarçam o protagonismo bichanando comentários sobre os jornalistas estrangeiros que circundam o palco improvisado.
Os olhos voltam-se agora para os músicos. As perguntas sucedem-se: quem são? "Somos os The Balliols", responde Albert Fish. De onde vem o vosso nome? "Vem da Escócia", responde Lucas Barbosa Ferreira. Isto que ouvimos é música de intervenção? "Não", respondem quase em uníssono. "Estamo-nos nas tintas para isso". Porquê dez músicas com Don't no título? "Janteloven", diz Gisbert, fazendo referência à sua ascendência dinamarquesa. "O que é isso?", pergunta um veterano. "Vai ao google", responde-lhe Sigmund, a sorrir.

E voltamos ao princípio: até ontem, tudo o que se sabia sobre os The Balliols não passava de especulações e comentários em blogs, além dum Youtube caseiro que conjugava umas fotografias da banda ao som de Don't Think You're As Good As We Are. Hoje há um álbum forte e intenso, quase de excepção, pronto a ser lançado. Há algo de novo.


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THE BALLIOLS
Lançamento a 2 de Fevereiro. Produzido por Iñaki Izaguirre @ Els Elements Exòtics, com som de Carles Fortuny. Misturado por Albert Fish. Fotografia e design de Ingrid Pradel.
Mais informações aqui.


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posted by Eduardo Brito at 12:21 da tarde | Permalink | 0 comments
a curious portuguese manuscript - alguns excertos
 
posted by Eduardo Brito at 3:31 da manhã | Permalink | 0 comments
dos capítulos e do conteúdo do manuscrito de xavier de souza.
Forte de Taná

"(...) têm, pois, estas "Memmórias do rennegado e apóstata General Rustomji Pereira, dictadas pelo próprio ao author numa cella do forte de Taná” escritas por meu avô Xavier de Souza os seguintes capítulos:

- Da minha emtrada na prisão ou forte de Taná em 1817 e da minha cella
- Da Revolta de alguns Marattas e castigos impostos pelos ingleses
- O General Rustomji Pereira é transferido para a minha cella
- Da doença do General e os trattos que eu lhe dei
- O General relata algumas histórias da sua infanccia
- Das muitas novidades e curiosidades da religião Parssy e do livro Avestão
- O General relata os seus trabalhos em fugir de Suratte para terras Marattas e a sua apostasia
- A sua fuga do General para a serra de Asserim e as suas capitulações no anno de 1818
- A última batalha do General na serra de Asserim
- Das muitas illusões ammorosas do General
- Da morte do General e conselhos para o seu filho illegitemo."

Daniel de Souza in “A Curious Portuguese Manuscript Found in Old Church st., Bandra: Memmórias do Rennegado e Apóstata General Rustomji Pereira, Dictadas pelo Próprio ao Author numa cella do forte de Taná”, Ed. Thacker, Vining & Co., Bombay, 1899, pp. 230.

 
posted by Eduardo Brito at 2:54 da manhã | Permalink | 0 comments
da vida e dos feitos valorosos do general rustomji pereira.
Surate, Índia.


“O general Rustomji Pereira, nascido em 1789, foi baptizado na capela da feitoria Portuguesa em Surate com o nome: António Rustão Pereira. [...] Tormentado desde a sua terna adolescência por uma dilacerante paixão por uma jovem inglesa, Miss Eleanor Oxenden (filha de uma alto funcionário da administração Britânica em Surate), viu os seus sonhos serem desfeitos pelas intransigências raciais da sociedade, que ainda hoje causam tantos desgostos amorosos. [...] Em 1806, o general conhece vários soldados Maratas, presos pelo Ingleses durante a guerra de 1803-1805 e transferidos para Surate. Após algumas conspirações, o general, movido pelo seu ódio aos Britânicos da cidade, ajuda os Maratas a evadirem-se de Surate e parte com eles para os confins do distrito de Nagpur, uma zona ainda independente dos Ingleses. [...] Os fanáticos de Nagpur aliciam Rustomji Pereira a efectuar vários rituais purificadores para regressar à religião Hindu, tendo em conta a religião da sua avó paterna. Estes rituais bárbaros e cruéis incluíam torturas de fogo e submissão à vontade Kali, a deusa horrível cuja ira é apenas aplacada por sacrifícios de carne humana. O general obviamente arrependido deste período negro da sua vida, defende que nunca abandonou completamente as suas crenças Pársias, incutidas na infância pelo amor perseverante da sua mãe. [...] Mas não esconde o seu orgulho nas campanhas dos Pindarys, o corpo de irregulares da cavalaria Marata que todos os anos faziam incursões destemidas pelos territórios Britânicos do centro e sul da Índia. [...] Aquando da grande campanha de pacificação dirigida de forma brilhante por Lord Hastings, o general conseguiu evadir-se do cerco final que precipitou a rendição de praticamente todos os Pindarys. Com um pequeno grupo de seguidores do seu esquadrão, iludiu os Britânicos e juntou-se aos Maratas de Puna, em finais de 1817. Participou ainda nas últimas convulsões dessa guerra, sendo o último general Pindary a render-se. [...] Após uma notável jornada pelo Gujarate, o general retrocedeu até à serra de Asserim. O forte estava já um pouco arruinado e os sipayos que o guardavam foram facilmente dominados pelo general. Procedeu então a obras de melhoria nas muralhas, sabendo já que se aproximava uma numerosa força britânica para o cercar. [...] A 25 de Novembro de 1818, a defesa do forte consistia em apenas cinco soldados mais o general. Ele estava resolvido a terminar a própria vida e disto pretendia convencer os seus fiéis soldados, quando um sargento da tropa Britânica, apercebido das suas intenções por se ter achegado primeiro ao último reduto dos sitiados, chamou o general na língua Portuguesa. Rustomji Pereira, já com a adaga ao peito, hesitou, e virou-se para o sargento. Reconheceu-o: um indo-português de Surate que lhe tinha sido um dos seus companheiros de infância. [...]"

Daniel de Souza in “A Curious Portuguese Manuscript Found in Old Church st., Bandra: Memmórias do Rennegado e Apóstata General Rustomji Pereira, Dictadas pelo Próprio ao Author numa cella do forte de Taná”, Ed. Thacker, Vining & Co., Bombay, 1899, pp. 205-214.
 
posted by Eduardo Brito at 2:52 da manhã | Permalink | 0 comments
dos antepassados do general, pt II - mahesh pereira.
Jai Singh Sawai

“Mahesh Pereira foi um dos mordomos da corte Jaipuriana durante os anos conturbados que se seguiram à morte de Jai Singh Sawai em finais de 1743. Dos registos oficiais de pagamentos, sabemos apenas que entrou ao serviço do Rajá em 1769, sendo filho de um rico comerciante de diamantes Indo-português e da cortesã Sunita Satyarann, uma das favoritas do próprio Jai Singh Sawai. [...] Em 1776, sabemos que esteve presente em Surate, para servir de intérprete nas conversações entre o rajá Jagat Singh e a East India Company, no sentido de formar uma aliança contra as forças Maratas. Aparentemente, permaneceu em Surate, pois adquiriu uma pequena casa junto da feitoria Portuguesa, tendo mais tarde adquirido a própria feitoria, quando esta encerrou em 1791. [...] Onde outrora esteve o cemitério Português (hoje uma lamentável ruína de lápides partidas, onde as cabras passeiam livremente), encontra-se a lápide: “Sepultura de Maheixo Daniel Pereira, embaixador das terras do Rajaputam, e sua molher, Wadia Quannadia. Falleceo a 25 de Novembro de 1803””.

Daniel de Souza in “A Curious Portuguese Manuscript Found in Old Church st., Bandra: Memmórias do Rennegado e Apóstata General Rustomji Pereira, Dictadas pelo Próprio ao Author numa cella do forte de Taná”, Ed. Thacker, Vining & Co., Bombay, 1899, pp 198-201.
 
posted by Eduardo Brito at 2:50 da manhã | Permalink | 0 comments
dos antepassados do general, pt. I - frei luiz pereira.
Palácio de Jaipur, séc XVIII

“Fr. Luiz Pereira SJ não tem uma biografia aprofundada nos anuários da Companhia. Sabemos apenas que esteve em S. Tomé de Meliapor (um bairro da cidade de Chennai). Daqui, passou ao posto francês de Chandernagore, em Bengala, onde conheceu o viajante e geógrafo Fr. Claude Boudier SJ (1686-1757). [...] O religioso português caiu sob a influência do missionário propagandista francês, ao ponto de resolver viajar com Boudier para Jaipur, na sua missão astronómica à corte do Rajá Jai Singh Sawai de Jaipur, em 1743. Durante a viajem, Fr. Luiz Pereira, ajudou nas medições trigonométricas entre Bengala e Agra e, chegados à corte de Jai Singh, tomou parte nas discussões teológicas e filosóficas habituais com Hindus, Muçulmanos, Budistas e Jainas, para entretimento (ou edificação) do Rajá. Contudo, o diário de Fr. Pierre Lamartine SJ, o fiel seguidor de Boudier, refere que Pereira começou a indiciar comportamentos instáveis e impróprios em Jaipur, demonstrando uma amizade crescente por um sábio Sufi da corte, Usuf Tanxamud. [...] A última referência nas notas de Lamartine refere apenas que o português tinha desertado a missão, estando ausente de Jaipur desde Agosto de 1743 (o que iria naturalmente desencadear a sua expulsão da Companhia).”

Daniel de Souza, in “A Curious Portuguese Manuscript Found in Old Church st., Bandra: Memmórias do Rennegado e Apóstata General Rustomji Pereira, Dictadas pelo Próprio ao Author numa cella do forte de Taná”, Ed. Thacker, Vining & Co., Bombay, 1899, pp. 102-106.
 
posted by Eduardo Brito at 2:42 da manhã | Permalink | 0 comments
daniel de souza, m.d..
Daniel de Souza, retratado em 1896.

"Daniel de Souza, médico-cirúrgico, muda de casa em 1890. Da zona central de Bombaim, mais precisamente do bairro católico de Goregaon, desloca-se para o subúrbio de Bandra, onde há poucos anos ainda se viam as ruínas do convento jesuíta fortificado de Sta. Ana. A sua nova casa não lhe é bem nova porque aí Daniel de Souza passou muitas e muitas horas felizes da sua meninice. É o bungalow do seu avô materno, Xavier de Souza.
Ao percorrer nostalgicamente a casa ainda inalterada pela sua presença, encontra, entre os livros do avô, um manuscrito rudemente envolvido em couro. Digamos que este é o início de uma escavação literária que leva Daniel de Souza a publicar, em 1899, o seu “A Curious Portuguese Manuscript found in Old Church st., Bandra”."

Jaisal Vikash Chandrashekhar
in "A Study on the Book of Daniel de Souza, M.D.", University of Mumbai Bulletin, s/d.
 
posted by Eduardo Brito at 2:14 da manhã | Permalink | 0 comments
jean beaudin.
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Realizador de Sans Elle.
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posted by Eduardo Brito at 6:35 da tarde | Permalink | 0 comments
matthew hammond - found art for the new year.
 
posted by Eduardo Brito at 4:28 da tarde | Permalink | 0 comments


















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