a cidade num instante (3) - lyon.

Durante algum tempo da minha vida, tive o privilégio de viver em Lyon, uma das cidades de onde sou. A minha memória poética ainda por lá anda. Em certas alturas do ano, aparece-me com a nitidez dos dias inesquecíveis. Diz-me que quando passeia pelas ruas de Vieux Lyon, estreitas e coloridas, aproveita para regressar a uma casa na Rue Saint Jean, que se abre com o código dois três sete quatro. Outras vezes, dá-me conta das suas idas preguiçosas aos cafés que frequenta desde sempre: o Le Regent, a Georges, o Chanteclère e o Comptoir Mimi. É memória pertinente: relembra-me as cores do fim de tarde, quando o sol desaparece nas costas da colina e a cidade fica misteriosa; pergunta-me se me lembro do nome de pontes, de ruas, de praças, do lugar exacto onde a Saône e o Rhône, os dois rios da cidade, se unem. Fala-me de idas à Ópera e passeios pelo Parc de la Tête D'Or. Ao domingo é vê-la em Gerland, a torcer pelo l'OL. Memória imaginativa, conta-me histórias de mercadores de seda, de tipógrafos e de cozinheiros. Inventa citações que atribui a Rabelais. Fala-me do trabalho de Tony Garnier e do nascimento do cinema ali para os lados de Montplaisir. Confessa-me que sonha em morar na Rue du Premier Film: quem não sonha viver numa rua com este nome? É, também, uma memória muito curiosa: consegue recordar-se do Jeff Buckley a cantar no Théatre Romain de La Fourvière, com a cidade toda nas suas costas, a quatro de Julho de mil novecentos e noventa e cinco. O que acaba por ser estranho, uma vez que a minha memória poética só chegou a Lyon alguns anos depois desse inesquecível anoitecer.
Fotografias: © Eduardo Brito
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