a história de andrée.
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Salomon August Andrée, Knut Frænkel e Nils Strindberg.


...we shall continue our course to the east some time more, as long as there is as bit of sense in doing so...

Diário de Salomon August Andrée - 1 de Agosto de 1897.


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A Casa do Balão, na Ilha dos Dinamarqueses, Spitsbergen.


1
Às treze horas e trinta minutos do dia onze de Julho de mil oitocentos e noventa e sete – precisamente há cento e dez anos e uma hora – o balão de hidrogénio Örnen partia da ilha dos Dinamarqueses, a norte de Spitsbergen, rumo ao Pólo Norte. A bordo, o cientista sueco Salomon August Andrée, acompanhado do fotógrafo Nils Strindberg e do engenheiro Knut Frænkel.
Sessenta e cinco horas depois da partida e cerca de quinhentos e cinquenta quilómetros a norte, o balão foi forçado a aterrar no mar gelado, a uma latitude de oitenta e dois graus e cinquenta e cinco minutos Norte.
Eram sete horas e trinta minutos da manhã de catorze de Julho. Durante quase três meses, Andrée, Strindberg e Frænkel caminharam sobre o gelo.


2
A ideia terá surgido a dezasseis de Março de mil oitocentos e noventa e quatro. Contemo-la assim: num qualquer evento social, o explorador polar A. E. Nordenskjold encontra Salomon August Andrée, um experiente aeronauta. Fala-lhe da possibilidade do uso de balões na exploração polar. Andrée fica encantado com a hipótese. Durante meses, entrega-se ao estudo e elaboração de um ambicioso projecto: voar até ao Pólo Norte.
A inovação que uma viagem de balão ao Pólo Norte traz é a velocidade a que decorre. Aproveitando o bom tempo do estio e o sopro do vento sul, Andrée estima chegar ao Pólo em menos de quarenta e três horas.
Em mil oitocentos e noventa e cinco, Salomon August Andrée apresenta a sua ideia na Academia das Ciências de Estocolmo. Será o primeiro homem a chegar aos noventa graus Norte. E logo pelo ar. Levará consigo um fotógrafo para mapear o caminho tomado e para retratar a vida da expedição: Nils Strindberg. Um meteorologista estudará o tempo e anotará todos os detalhes da viagem: Nils Gustaf Ekholm.
Entre vozes críticas – um suicídio, um louco – e aclamações –uma ousadia, um herói- Andrée inicia a recolha de fundos. Alfred Nobel está, tal como o rei da Suécia, entre os nóveis mecenas da construção e aprovisionamento de um balão chamado Örnen (Águia), encomendado na véspera de Natal de mil oitocentos e noventa e cinco ao francês Henri Lachambre.
Um ano e meio mais tarde, na casa do balão, erguida em Virgo, na ilha dos Dinamarqueses, no extremo noroeste de Spitsbergen, o Örnen aguarda ansiosamente o clarear dos céus para partir para noventa graus norte. Ekholm, ao vê-lo assim construído, aponta-lhe defeitos e perigos diversos e abandona a expedição. É substituído por Knut Frænkel.
A onze de Julho de mil oitocentos e noventa e sete, o dia amanhece azul e limpo. Finalmente. Para trás ficou uma semana de tempo instável. Todo o equipamento é colocado no balão. A tripulação pronta para dar início à aventura. Porém, dois baleeiros ancoram no porto. Dizem que do sul vem tempestade. Andrée pede uma hora para reflectir. Olha os horizontes. Mede a força dos ventos. Ouve os colegas. E conclui que chegou o momento de voar.


3
O balão ergue-se muito devagar e afasta-se para Nordeste. Deixa para trás o porto de Virgo, os acenos de todos aqueles que ao longo de um mês o foram construindo. São treze horas e trinta minutos do dia onze de Julho de mil oitocentos e noventa e sete. Nos primeiros instantes da viagem, tudo como previsto: um ou outro ajuste de peso e a altitude estabilizada nos setecentos metros. O primeiro gelo a flutuar no oceano azul escuro é avistado às quatro e dezasseis. O vento, de sudoeste, empurra o Örnen para o seu destino. A paisagem, lá em baixo, vai-se tornando cada vez mais branca e silenciosa: não há sinais de vida e os únicos ruídos que se escutam são do gelo que se quebra e cai.
A neblina aparece, o balão arrefece e perde altitude. Largam-se sacos de areia para voar mais alto. São vinte e duas horas, o sol brilha. Andrée decide descansar.
O segundo dia da expedição, doze de Julho, começa com o avistar de uma densa nuvem. O Örnen não tem como lhe fugir. Ao entrar na sua espessura, arrefece e desce bruscamente. Está agora a apenas cento e vinte metros do tapete de gelo que cobre o mar. Mesmo depois de se ter desfeito de algumas dezenas de quilos.
Todo o dia é passado dentro de um intenso frio nevoeiro. Às seis da tarde, o balão raspa na superfície gelada. Vários toques no chão de gelo vão se sucedendo. Às vinte e três horas, imobiliza-se na superfície pela primeira vez. As doze horas seguintes seriam passadas assim, num doloroso sobe, desce, pára. Sobe, desce, pára.
Ao meio dia de treze de Julho, uma das paragens no mar de gelo é aproveitada para uma refeição de faca e garfo. A primeira desde a partida. Strindberg chama-lhe o dîner du 13 juillet. A ementa é composta por


Potage Hotch Potch Chateaubriand

The King’s Special Ale

Chocolate With Biscuits

Biscuits with raspberry syrup and H2O.

No final da refeição, o nevoeiro levanta e deixa ver o sol. O ânimo e a força reaparecem, também. Latitude calculada de imediato: a expedição está oitenta e dois graus norte. Andrée, Strindberg e Frænkel decidem soltar pombos-correio com bilhetes a darem conta de onde se encontram e de quão bem dispostos e optimistas todos estão. Mas o sol dura pouco, como sempre. Duas horas depois, o nevoeiro regressa denso e o Örnen não levanta. Largam-se duzentos e doze quilos de carga. Em vão.
Os momentos que se seguem são passados num angustiante sobe e desce. Até que à hora sétima do dia catorze de Julho de mil oitocentos e noventa e sete, o Örnen termina o seu vôo: gelado no seu topo, desce e pousa no chão branco. Calmamente.



4
São oito horas da manhã de catorze de julho de mil oitocentos e noventa e sete. O Örnen começa a esvaziar-se lentamente. Andrée, Frænkel e Strindberg saem do balão. Olham a paisagem branca em volta. Sentem a espessura do gelo debaixo dos seus pés. Calculam a latitude e a longitude: estão a oitenta e dois graus e cinquenta e seis minutos norte e a vinte e nove graus e cinquenta e dois minutos este. É altura de montar um acampamento para que descansem algumas horas. Depois, nada mais resta senão traçar uma rota de regresso a casa. E caminhar.
Strindberg afasta-se uns passos com a sua câmara fotográfica. Arma o tripé, mede a luz e fotografa o inglório fim da expedição polar de Salomon August Andrée.


5
Os dias que se seguem à aterragem do Örnen são de intenso trabalho de preparação da caminhada que se avizinha. Ainda assim, Strindberg tem tempo e inspiração para escrever algumas cartas à sua noiva Anna. Improvisa-se então um acampamento, calculam-se as correntes que empurram o gelo e decide-se que caminho seguir para regressar a casa. O melhor destino parece ser o Cabo Flora, nas ilhas de Franz Joseph, outrora abrigo de inverno de Fridjtof Nansen, ponto de passagem de vários baleeiros.
A dezassete de Julho de mil oitocentos e noventa e sete, Andrée abate o primeiro de muitos ursos polares que apareceriam no caminho e que se tornariam no principal mantimento dos três sobreviventes. Cinco dias depois, Andrée, Frænkel e Strinberg iniciam uma longa e penosa caminhada no gelo, arrastando pesados trenós com tendas, medicamentos, armas, mantimentos e tanta mais parafernália, rasgando caminho no gelo imperfeito, vencendo o silêncio do vento forte.
Os dias passam iguais, sempre tão iguais. Desmonta-se a tenda, caminha-se, ao fim de seis horas come-se, caminha-se mais duas horas, monta-se a tenda, come-se outra vez e descansa-se por fim. Assim. E sempre assim, dia após dia.
No final de um de Agosto, Strindberg ao calcular a localização da expedição apercebe-se que, por força das correntes, a expedição caminhou para trás seis quilómetros. E que pela mesma razão não consegue rumar a Este. É o primeiro duro golpe na confiança dos três caminhantes. Os planos invertem-se rapidamente e o destino passa a ser qualquer uma das Sete Ilhas, a norte de Spitsbergen.
A treze de Agosto, a comida acaba. O desespero dura pouco: um miraculoso acaso faz com que a expedição se cruze com três ursos polares, imediatamente abatidos e transformados em provisões. Depois, segue-se caminho e mais caminho, cansaço e mais cansaço. E cada vez mais frio: o inverno está a chegar. Quinze dias após o início da caminhada, a temperatura desceu de zero para menos quatro graus centígrados. No fim de Agosto chega aos oito graus negativos. E o vento corta, agora.
Os pés doem, as mãos queimam: a um de Setembro, todos acordam demasiado cansados e decidem nem sequer dar um passo. O dia é passado a remendar equipamentos, a descansar e a procurar novas forças para sobreviver. Três dias depois, Nils Strindberg cumpre o seu vigésimo quinto aniversário, assinalado com um almoço festivo composto por carne de urso com pão, sopa de urso e bife de urso com banha de urso.
A quinze de Setembro de mil oitocentos e noventa e sete, os três peregrinos do gelo avistam terra, pela primeira vez desde onze de Julho. Os noruegueses chamam-lhe Kvitøya, os ingleses White Island ou Gilles Island e os suecos Vitön: uma ilha branca onde o gelo pouco mais mostra que o cume de uma ou outra montanha. Em três dias dirigem-se para sul, contornando a costa gelada. É aí, com terra à vista que decidem invernar: os mantimentos, enlatados e caçados, são suficientes para muitos meses e o acampamento de inverno é erguido em poucos dias. Porém, na noite de dois de Outubro, o gelo quebra-se em pequenos pedaços e o acampamento desfaz-se e espalha-se. É um duro golpe, também. Mas ninguém perde a coragem.
Andrée, Strindberg e Frænkel, exaustos, doridos, com diarreias, cegueira da neve, dores de estômago, pés partidos, cãibras e profundamente desanimados, entram na terra gelada de Vitön a cinco de Outubro de mil oitocentos e noventa e sete.
Knut Frænkel menciona uma excelente situação a quatro e a cinco de Outubro. A dezassete, uma entrada no diário de Strindberg diz Home 7.05 am. E depois, o imenso silêncio.


6
O mistério de Andrée começa a quinze de Julho de mil oitocentos e noventa e sete. É nesta data que é encontrada a antepenúltima notícia da expedição: o navio norueguês Alken apanha um dos pombos correios largados do balão Örnen. Na mensagem, destinada ao jornal sueco Aftonbladet, podia ler-se um animador tudo bem a bordo. Em mil oitocentos e noventa e nove, bem como no ano seguinte, são encontradas mais duas mensagens enviadas por Andrée ainda durante o vôo do Örnen. Ambas mencionam o elevado optimismo e a excelente condição de todos.
Trinta e três anos depois da viagem de Andrée, a expedição de Gunnar Horn, a bordo do veleiro Braatvag, atraca em Vitön. Tal como em mil oitocentos e noventa e sete, o Verão polar de mil novecentos e trinta é particularmente quente e deixa ver o cume das montanhas da ilha branca. Olaf Salen e Karl Tusvik, marinheiros, vão a terra. Vêem a ponta negra de um batel, mancha indisfarçável na paisagem. Acercam-se e lêem Andrees polarexp. O mistério está desfeito. Ali está, quase intacto, o acampamento de inverno da expedição de mil oitocentos e noventa e sete. Mais à frente, a sepultura de Nils Strindberg. Dentro da tenda, os corpos de Knut Frænkel e Salomon August Andrée, lado a lado e rodeados por inúmeros objectos conservados pelo gelo, desde utensílios e diários da viagem até aos rolos fotográficos de Strindberg.
Termina um mistério, outro começa: se é lógico que Strindberg foi o primeiro a morrer, como pereceram os outros dois exploradores? Ao lado dos seus corpos, restos de provisões ainda por consumir. E peles de urso. E uma salamandra desligada cheia de parafina. O que exclui a fome, o frio e o envenenamento por monóxido de carbono como causas de morte. Hoje, volvidos quase cento e dez anos, apontam-se como causas prováveis da morte dos exploradores o botulismo e a triquinose: infecções virais provocadas pela ingestão de carnes contaminadas, como a de tantos e tantos ursos. Porém, há que não esquecer nem descurar a brancura da apatia, da exaustão, do desespero.

"Andrée foi um técnico sagaz e práctico (...). Apenas tomou uma decisão insensata em toda a sua vida: a decisão de tentar alcançar o Pólo Norte num balão de hidrogénio. A sua expedição (...) estava inquinada desde o princípio. E Andrée seguramente que se apercebeu disso muito antes da partida.
O que é que terá dado asas a tamanha loucura? Porque é que todos se entusiasmaram tanto? O que fez, então, destes homens (...) os heróis em que se tornaram?"*


Eduardo Brito, Julho de 2007.


* in The Flight Of The Eagle, de Per Olof Sundman, Ed. Pantheon Books, NYC 1970.


As fotografias de Nils Strindberg podem ser vistas aqui.


A História de Andrée, em seis pequenas partes, foi escrita com o apoio e inspiração da seguinte bibliografia:
- Per Olof Sundman, in The Flight Of The Eagle, Ed. Pantheon Books, NYC 1970.
- Andrée’s Story: The Complete Record Of His Polar Flight, 1897. Edited by the Swedish Society for Anthropology and Geography, The Viking Press, NYC 1930.
- Wikipédia: S. A. Andrée's Arctic balloon expedition of 1897.
 
posted by Eduardo Brito at 1:27 da manhã | Permalink |


1 Comments:


At 11:45 da tarde, Blogger jatoz

finalmente li o polaris. gostei muito, está um retrato impressionante.

jorge

 


















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EB


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